


Quintana sempre me dizia
"esses que aí estão
atravancando o meu caminho
eles passarão
e eu passarinho"
gosto do vinho verde
e branco
com gosto virgem da flor
cujos lábios
nunca pousaram pro retrato
eu poeta fausto
quero a uva
e o diabo a quatro
e quintana sempre me dizia:
"eu sou como sou passarinho
intransponível"
poeta é assim mesmo
só deseja o imprevisível
impossível imaginário
e assim chega ao centenário
sendo assim ou seja como for
um beija-flor
um passarinho
quer construir seu ninho
nos lábios daquela aflor
artur gomes
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Amor a Portuguesa
o meu amor mora em Lisboa
e leva a vida numa boa
e não leva a sério
tudo o que um dia
escreveu o poeta
Fernando Pessoa
por exemplo:
que o poeta é um fingidor
o meu amor não acredita
porque sabe que o amor
é o sagrado da escrita
Artur Gomes
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Língua nova
a língua escava
entre os dentes
a palavra nova
fulinaimânica
sagarínica
às vezes muito prosa
outras vezes
muito cínica
em tudo o que quero conhecer
a pele do teu nome
a segunda pele
o sobrenome
língua não tem pátria
no que quero
no que posso
a pele em flor
a flor da pele
a palavra dandi
em teu corpo nu
a língua em fogo
a língua crua
a língua nova
a língua nua
fulinaímica
sagaranagem
palavra texto
palavra imagem
e no céu da tua boca
a língua viva
se transmuta na viagem
Artur Gomes

os búfalos
que pastam nos meus olhos
trazem os olhos de isabel
diante dos meus olhos
com fome de desejos
ali em frente
o rio o mar
a tela o pasto
onde desagua
em meu espelho
do outro lado
uma boca de mulher
sedenta dos meus beijos
Artur Gomes
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poética
tudo quântico fosse mar
kalu seria iemanjá
oxumaré
oxum dedé
água de beber
alimento de comer
coisa santa
orixá.
coisa rara amaralina
essa coisa uma menina
essa menina fosse quântica
kalu seria carolina
me olhando da janela
eu aqui pensando nela
e ela ali em alto mar.
Artur Gomes
fulinaíma não é sagaranagem
sagaranagem não é fulinaíma
o olho daquela pantera
não é o olho daquela menina
os búfalos que vejo pastando
não têm a cara de Macunaíma

proíbe que me coma
mas pra ti estou de graça
pra ti não tenho preço
sou eu quem me ofereço
a ti: músculo & osso
leva-me à boca
e completa o teu almoço

,
furai
a pele das partículas dos poemas
viemos das gerações neoabstratas
assistindo a belos filmes de Godart
inertes em películas de Truffaut
bebendo apocalipses de Fellini
em tropicâncer genocidas de terror
,
sangrai
a tela realista dos cinemas
na pele experimental do caos urbano
,
tragai
Dali pele entre/ossos
Glauber rugindo enTridentes
na língua do veneno o gozo das serpentes
nos frascos insensíveis de isopor
,
caímos no poder do vil orgânico
entramos no curral dos artefatos
na porta de entrada os artifícios
na jaula sem saídas os mesmos pratos

neste país de fogo & palha
se falta lenha na fornalha
uma mordaz língua não falha
cospe grosso na panela
não me metam nestes planos
verde/amarelos
meus dentes vãos armados
nem foices nem martelos
meus dentes encarnados
alvos brancos belos
já estão desenganados
desta sopa de farelos

O QUE é que mora
em tua boca bia?
um deus. um anjo.
ou muitos dentes claros
como os olhos do diabo
e uma estrela como guia?
O QUE é que arde
em tua boca bia?
azeite, sal, pimenta e alho
réstias de cebola
carne krua do caralho
um cheiro azedo de cozinha
tua boca é como a minha?
O QUE é que pulsa
em tua boca bia?
um mar de eternas ondas
que covardes não navegam,
rio de águas sujas
onde peixes se apagam.
ou um fogo cada vez mais Dante
como este em minha boca
de poeta/delirante
nesta noite cada vez mais dia
em que acendo os meus infernos
em tua boca bia?

pudesse eu divagar pelos teus poros
bosque do teu reino em teus pêlos
mergulhar contigo o mar da fonte
atravessar da carne a pele a ponte
penetrar no orgasmo dos teus selos.
pudesse eu cavalgar por tuas crinas
no dorso cavalar onde deflora
deixando assim então de ser menina
e me tornar mulher por toda sina
no inferno céu da tua hora

ela tinha um jeito gal – fatal
vapor barato
toda vez que me trepava as unhas
feito um gato
cantar era seu dom
chegava a dominar a voz feito cigarra
cigana ébria
vomitando doses do seu canto
uma vez só subiu ao palco
estrela no hotel das prateleiras
companheira de ratos
na pele de insetos
praticando a luz incerta
no auge do apogeu
a morte não é muito mais
que um plug elétrico
um grito de guitarra
uma centelha
logo assim que ela começa
algo se espelha
na carne inicial de quem
morreu
AntLírica
eu não sou zen
muito menos zhô
nem tão pouco
Zapa
nem ando na contra capa
do teu disquinho
digital
nem à direita do fonema
vôo no centro/viagem
olho rasante/miragem

Aqui,
redes em pânico
pescam esqueletos no mar
esquadras - descobrimento
espinhas de peixe
convento
cabrálias esperas
relento
escamas secas no prato
e
um cheiro podre no
AR

ovo de colombo quebrado
areia branca inferno livre
rimbaud –
áfrica virgem
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais
telhados bóiam nas ondas
tijolos afundando náufragos
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas
jerusalém pagã visitada
atafona.pontal.grussaí
as crianças são testemunhas:
jesus cristo não passou por aqui

miles davis fisgou na agulha oscar no foco de palha
cobra de vidro sangue na fagulha
carne de peixe maracangalha
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha?
penúltima dose de pólvora
almeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha
fatal daqui pernambuco
atafona.pontal.grussaí
as crianças são testemunhas:
mallarmé passou por aqui.
bebo teu fato em fogo
punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro
aluga-se teu brejo no mar
o preço nem Deus nem sabre
sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
plástico de lixo nos mangues
que mar eu bebo afinal?

ontem a noite me pegou
biritando uma cerveja
na porta do sacy
em frente ao largo
que eles chamam Ordem
e eu digo que é desordem
onde se concentram
os punks góticos
os darks tudo fake
nesta cidade lock
a papa aqui pirou
cantando easy rider
nesta cidade on the rock
artur gomes
http://carnavalha.zip.net
http://fulinaimagomes.zip.net
http://arturgumes.zip.net

VeraCidade
porque trancar as portas tentar proibir as entradas se já habito os teus cinco sentidos e as janelas estão escancaradas. um beija-flor risca no espaço algumas letras de um alfabeto grego signo de comunicação indecifrável. eu tenho fome de terra e esse asfalto sob a sola dos meus pés agulha nos meus dedos. quando piso na augusta o poema dá um tapa na cara da paulista. flutuar na zona do perigo entre o real e o imaginário. joão guimarães rosa martins fontes caio prado um bacanal de ruas tortas. eu não sou flor que se cheire nem mofo de língua morta o correto deixei na cacomanga matagal onde nasci. com os seus dentes de concreto são paulo é quem me devora e selvagem devolvo a dentada ma carne da rua aurora.
arturgomes
in fulinaíma outras vozes outras falas
ao som das guitarras de filipe buchaul gomes
