césar castro - transpirações gráficas

a ferida aberta ontem
carne viva exposta
hoje cicatriz
foi assim que ela me disse
como se cego eu fosse
e não ouvisse tua fala
queimando em mim
lareira em brasa
tuas unhas minha casa
e teu corpo flor de liz
césar castro - transpirações gráficas

a ferida aberta ontem
carne viva exposta
hoje cicatriz
foi assim que ela me disse
como se cego eu fosse
e não ouvisse tua fala
queimando em mim
lareira em brasa
tuas unhas minha casa
e teu corpo flor de liz
césar castro - transpirações gráficas

lua luavíssima lua
carne que menstrua
lua lua lua
toda nua e crua
quando a hora chega
no sexo da menina
sendo ana isadora carolina
na boca de são jorge
mínimo satélite
olhos estelar
constelação na pele
quando te quero perto
quando te quero dentro
deste meu céu da boca
quando te espero língua
e tu apenas lua
voa em pleno ar
pelas ruas de são paulo
na palavra em plumo
quando o amor é rumo
em que os rios vão pro mar
http://quartacomverso.blogspot.com
césar castro - transpirações gráficas

A Traição do Lirismo
Dalila Teles Veras
Artur Gomes, feito gume, é máquina devoradora do mundo. Mastiga coisas, afetos, pessoas, rumina e afia os elementos em sua navalha verbal e os transforma na mais pura poesia. Dono de uma criatividade em permanente ebulição, hábil no verbo e na disposição visual do mesmo no espaço do suporte - papel ou pano - bandeira a gotejar palavra que, não raro, é também palco e gesto, (in)cenação a complementar e enriquecer o que a palavra muda já disse, a dizer outra coisa que é também a mesma coisa: poesia.
Poeta em tempo integral, como poucos ousaram ser, Artur Gomes constrói, sem pressa (os anos não parecem pesar - na carne nem no espírito) a sua delirante e criativa poesia, colagem da colagem da colagem, (re)encarnação mais do que perfeita da antropofagia como nem mesmo o velho Serafim sonhou. Nada, absolutamente nada escapa à sua devastadora e permanente passagem, andarilho de poderosa voz a evangelizar para a poesia.
Este Brazilírica Pereira: A Traição das Metáforas é a continuação de um enredo de há muito ensaiado. Seus atrevidos personagens já apareciam em Vinte Poemas com Gosto de JardiNÓpolis & Uma Canção com Sabor de Campos. Legítimas apropriações retiradas de suas viagens brazílicas, figuras que a sua generosidade literária faz questão de homenagear. Na passarela poética de Artur, tanto podem desfilar Mallarmé, Faustino, Dalí, Oswald, Baudelaire, Drummond, Pound, Ana Cristina César e o sempre lembrado mestre Uilcon Pereira, a quem o novo livro é dedicado, como personagens anônimos encontrados nas quebradas do mundaréu, além dos amigos, objeto constante de sua poesia. Neste caldeirão, “olho gótico TVendo”, entra até um despudorado acróstico, rimas milionárias em permanente celebração. O poeta Artur, disfarçado de concreto, celebra descaradamente a amizade e o lirismo e ri-se de quem tenta classificá-lo. Evoé, Artur!
césar castro - transpirações gráficas

todo mistério
que há no fundo
dos teus olhos
seja ele mais profundo
alga do mar
água de rios
salgada ou doce
vou mergulhar
como se peixe eu fosse
e flutuar
no fluxo dos teus cios
césar castro - transpirações gráficas

Inscrição para uma lareira
A vida é um incêndio:nela
Dançamos salamandras mágicas.
Que importa restarem cinzas
Se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
Cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
Na própria luz consumida...
Mário Quintana